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Internet: É proibido proibir!

Cada vez há mais risco de exposição das crianças a conteúdos que as possam incomodar na Internet. Porém, a melhor forma de lidar com o problema passa pela capacitação. Proibir a Internet está fora de questão. A mensagem é deixada aos pais no relatório final do projeto europeu EU Kids Online.

Andreia Lobo | Educare

Não é novidade que a prática aguça o engenho. Ao usar a Internet com frequência, os utilizadores ganham mais competências para navegar. As crianças e os jovens estão a tirar partido deste mar de oportunidades e conhecimentos. Por outro lado, são também eles os que mais riscos correm. Em Portugal, os pais têm uma postura de “pé atrás” com a Internet. Tendem a restringir o uso, julgando estar a proteger.

Não são os únicos. Seguem a tendência dos países do sul da Europa. Mas esta não será a melhor estratégia, garantem os resultados do mais recente relatório interativo do EU Kids Online. Um projeto que muita luz tem trazido sobre o uso da Internet entre os 9 e os 16 anos. As medidas mais restritivas fazem muito mais do que dificultar a vida às crianças, impedem-nas de aprender a lidar com os perigos.

Os investigadores da London School of Economics (LSE), no Reino Unido, alertam: as crianças e os jovens estão a usar a Internet de modo “substancialmente” diferente. A mudança de 2011 a 2014 é fácil de notar. Começam a experimentar o mundo dos três “w’s” mais cedo. Ficam online em muitos mais locais. Porque é possível estar quase sempre conectado em qualquer sítio. Por isso, multiplicam-se os momentos do dia em que essa ligação acontece. Mas as novidades não se esgotam aqui. Dispositivos com acesso móvel, como os Smartphones e os Tablets, estão também a tornar o acesso mais privado.

Alertas aos pais
Em Portugal, “um dos resultados mais interessantes é o contraste entre o elevado número de crianças de todos os meios sociais que acediam à Internet através dos seus portáteis”, explica Cristina Ponte, coordenadora do estudo no país, através de um vídeo disponível no site do projeto. 

Em 2010, recorda, estes acessos eram “resultado da política educativa da altura”, de programas nacionais de distribuição de portáteis, como o e.escolinha, que levou o computador Magalhães às crianças do 1.º ciclo do ensino básico. As entrevistas conduzidas aos pais portugueses apontavam, no entanto, “um contraste muito grande entre as condições que as crianças tinham e a situação dos pais” pouco utilizadores da Internet, lembra a investigadora da Universidade Nova de Lisboa, garantindo que “hoje a situação é diferente”.

Os investigadores portugueses descobriram alguns indicadores que colocavam o país muito acima da média europeia. Além do uso de portáteis, um elevado número de crianças portuguesas acedia à Internet no seu próprio quarto, em bibliotecas e espaços públicos com acesso sem custos. O que, garantem, constitui para as crianças e os jovens uma “oportunidade para terem um espaço de aprendizagem”.

Um “dado que deve merecer a atenção dos pais”, alerta Cristina Ponte, diz respeito às diferenças encontradas entre géneros. “Os rapazes tinham um acesso mais frequente, com mais possibilidade de acederem à Internet no seu próprio quarto do que as raparigas.” Em casa, “as crianças eram vistas como sendo os elementos que introduziam a Internet nas famílias”.

Os investigadores portugueses perceberam ainda que também “as [crianças] de meios desfavorecidos consideravam que sabiam muito mais sobre Internet que os seus pais”. “Tudo isto coloca um conjunto de desafios às famílias portuguesas para procurarem acompanhar mais de perto a experiência das crianças na Internet”, conclui Cristina Ponte.

Para contrariar o “excesso de preocupação parental”, a rede EU Kids Online aconselha os pais a apoiar a exploração que os filhos fazem da Internet, desde cedo, conversarem sobre as suas incursões online, e, acima de tudo, a procurarem informação sobre os riscos e os benefícios que o mundo digital oferece. Assim, será mais fácil aos adultos explicar de forma clara aos mais novos como se devem comportar online, bem como definir algumas regras.

Aos decisores políticos, outro dos alvos das recomendações da rede, é pedido que procurem aumentar as oportunidades dos mais novos, o que passa por “reforçar as suas competências para lidar com os riscos e a sua resiliência face a potenciais danos”.

Mais Internet
Usos mais privados resultam em novos riscos, alerta a equipa internacional do EU Kids Online, liderada pelos investigadores da LSE, Sonia Livingstone e Leslie Haddon, com base nos resultados da terceira e última fase do projeto. De 2010 a 2014, os jovens europeus entre os 11 e os 16 anos ficaram mais expostos a mensagens de ódio (de 13% para 20%), a páginas com conteúdos sobre pró-anorexia (de 9% para 13%), automutilação (de 7% para 11%) e ao ciberbullying (de 7% para 12%). 

Dados mais aprofundados recolhidos neste período em sete países (Bélgica, Dinamarca, Itália, Irlanda, Portugal, Roménia e Reino Unido) mostram o que andam estes jovens a fazer online. A diferença entre 2010 e 2014 é significava em termos do aumento da utilização, seja ela qual for. Assim, é possível que, hoje, 63% das crianças e dos jovens estejam a visitar o seu perfil numa rede social. Em 2010, era o que faziam 40% dos inquiridos. Já 49% dos utilizadores inquiridos dizem usar ferramentas de mensagens instantâneas (eram 40% em 2010). E 59% dizem utilizar a Internet para ver videoclips em portais como o YouTube (eram 32% em 2010).

Aumenta também a utilização para fins mais educativos. Em 2010, 18% das crianças e jovens diziam ligar-se à Internet para fazer os trabalhos escolares; em 2014, são já 33%, a par com o crescimento da utilização mais lúdica. Assim, aumenta ainda a participação em jogos online (de 16% para 28%), o descarregamento de músicas e filmes (de 10% para 24%), a publicação de mensagens em websites (de 9% para 15%), as visitas a salas de conversação (de 9% para 19%); leitura ou visualização de notícias (7% para 18%), o uso de páginas de partilha de ficheiros (4% para 10%) e a publicação de fotos, vídeos e músicas para partilha com outros utilizadores (de 6% para 20%).

“Escada de oportunidades”
Quanto mais as crianças e os jovens usam a Internet, mais competências digitais ganham, asseguram os investigadores, e mais alto sobem no que designam por “escada de oportunidades”. Uma escalada que lhes permite recolher benefícios dessa utilização. Mas a probabilidade de retirar bom partido da Internet varia com a idade, género e estatuto socioeconómico dos mais novos, dizem os investigadores. Depende ainda da forma como os pais supervisionam essa utilização. E, em último caso, do tipo de conteúdos que estão ao alcance dos navegadores. 

Por isso, são precisos ainda mais esforços para prevenir os riscos, sendo certo, para os investigadores, que nem toda a exposição a conteúdos “perigosos” resulta em danos para as crianças. Isto é: o EU Kids Online prova que “a possibilidade de uma criança ou jovem ser incomodado ou perturbado por experiências online depende em parte da sua idade, resiliência e recursos para lidar com o que acontece na Internet”. São estes os resultados fundamentais do projeto.

Sobre a rede EU kids Online...

De 2006 a 2014, o projeto EU kids Online conduziu um amplo estudo sobre o modo como os utilizadores entre os 9 e os 16 anos navegavam na Internet e os riscos e oportunidades que daí retiravam. O objetivo: procurar evidências que permitissem apoiar decisões políticas na área da educação para os media. Em 2010, o projeto teve a originalidade de incluir entrevistas a 25 mil crianças e jovens e a um dos seus pais, em suas casas, em 25 países, menos que o total final de participantes: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suécia e Turquia. Todos os resultados e detalhes técnicos sobre a rede EU Kids Online podem ser consultados no endereço www.eukidsonline.net ou no site português www.fcsh.unl.pt/eukidsonline.

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