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Bullying: como pôr um ponto final?

Para este aluno, perceber que estava a ser alvo de bullying e conhecer os contornos deste fenómeno foi muito importante. Compreender que afinal ele não era a pessoa desprezível que o outro queria que ele acreditasse que era foi absolutamente fundamental. Foi igualmente decisivo refletir sobre as características que o tornavam o alvo perfeito: corava, chorava e nunca retribuía os insultos.

Viu o filme What Lies Beneath (A Verdade Escondida)? Trata-se de um thriller americano de 2000, dirigido por Robert Zemeckis, que teve como principais protagonistas, Michelle Pfeiffer, Claire Spencer, e Harrison Ford, tal como Norman Spencer. No elenco, ainda estão os nomes de Diana Scarwid (Jody), Miranda Otto e Amber Valletta.

Porquê falar de um filme que já tem tantos anos de vida? Porque a história verídica de dois alunos do 4.º ano desenterrou-o da minha memória, embora aparentemente sejam duas histórias que nada têm em comum.

No filme citado, Claire Spencer imaginava levar uma vida perfeita até que descobre que, afinal, o marido, Dr. Norman Spencer, é uma ameaça à sua integridade, apesar de a relação entre ambos, aparentemente muito boa, nada indiciar nesse sentido.

No filme real, vivido por um aluno do 4º ano, o amigo preferido, excelente aluno, com quem partilhava a carteira e em quem confiava bastante, decide, de uma forma dissimulada, destruir-lhe a autoconfiança, com gestos e palavras destrutivas e com a manipulação de vários colegas da turma contra ele.

Claire Spencer e este aluno de que falo tiveram de enfrentar a dura questão: em quem posso afinal confiar? Se estes em quem eu confiava me traíram, então como saberei, no futuro, a quem revelar a minha intimidade?

Para este aluno, perceber que estava a ser alvo de bullying e conhecer os contornos deste fenómeno foi muito importante. Compreender que afinal ele não era a pessoa desprezível que o outro queria que ele acreditasse que era foi absolutamente fundamental. Foi igualmente decisivo refletir sobre as características que o tornavam o alvo perfeito: corava, chorava e nunca retribuía os insultos.

Para os pais desta criança, também protagonistas desta história, a sensação de estarem a viver um filme de terror deixou-os completamente perturbados e desorientados. O filho, anteriormente bem-disposto, feliz e com grande interesse e motivação pela escola, tornara-se, sem eles compreenderem porquê, numa criança pálida, de semblante carregado, com sinais de tristeza e apatia, aversão à escola e sintomas físicos, como dores de barriga e cabeça. À questão “O que se passa contigo?” a resposta era sempre a mesma “Nada”. Também estes pais, perturbados e ansiosos, precisaram de ajuda pois filmes com esta carga negativa ninguém deseja viver na primeira pessoa.

E a confiança? Como ajudar esta criança a recuperar a confiança nos outros, se o amigo mais íntimo se tornara o maior inimigo? Em quem poderia realmente confiar dentro daquele grupo de crianças que, manipuladas pelo outro rapaz, fugiam dele no recreio? Para ajudar a encontrar pistas e potenciais apoios, foi fundamental a aplicação de um teste sociométrico, instrumento muito útil para estudar a relação entre os diferentes elementos que constituem um grupo. As conclusões a que foi possível chegar foram que este menino era realmente muito aceite na turma e que havia colegas que claramente gostavam de estar com ele na sala de aula e no recreio. Ter percebido que afinal não era desprezível mas aceite por muitos colegas foi para ele um enorme alívio! A professora foi também envolvida em todo o processo, ficando igualmente estupefacta com o comportamento do agressor, que para ela estaria longe de qualquer suspeita.

O que fazer com o agressor e com os pais deste? Também eles serão envolvidos estando já agendados momentos em que tudo isto será analisado e estudado com eles, para que histórias como esta não se repitam.

Para finalizar um ramalhete de questões, que poderão parecer descontextualizadas. Quem trabalha estas problemáticas nas escolas? Quem tem formação para adequadamente chegar a todos os alvos envolvidos num processo que de simples só tem a aparência? Porque continuam as escolas sem psicólogos para responder a estas e a muitas situações que diariamente surgem? Até quando os que já estão colocados aguentarão tantas solicitações e a frustração de não conseguirem responder adequadamente ao que lhes é solicitado?


ADRIANA CAMPOS Licenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do Padrão da Légua em Matosinhos.

Artigo originalmente publicado no Educare.pt

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