Login

Comprar

Para alunos e pais

Para professores

Para instituições

Outros produtos, serviços e funcionalidades

Blogue EV e Webinars

Ajuda

Competências para uma vida (escolar) melhor

Existem desigualdades ao nível das competências sociais e emocionais que impactam a vida escolar e o futuro dos alunos. A boa notícia é que elas são “maleáveis” e podem ser “desenvolvidas.”

Alunos motivados faltam menos à escola. Dormir mais de oito horas por noite e comer frutas e legumes, nas doses recomendadas, contribui para o bem-estar físico e emocional. E até as expectativas de estudar no ensino superior ou criar um negócio “estão alinhadas” com certas competências sociais e emocionais.

As crianças de 10 anos são mais otimistas e têm mais energia do que os jovens de 15 anos. Na adolescência evidenciam-se as diferenças de género. Os rapazes são mais resistentes ao stress e mais sociáveis. As raparigas são mais tolerantes, motivadas e responsáveis. Existe um grande “fosso emocional” entre os alunos de contextos económicos distintos, com os mais desfavorecidos a perderem em matéria de criatividade, assertividade e empatia.

Os alunos mais curiosos, motivados e persistentes têm melhores notas nas áreas da leitura, matemática e artes. Faltam menos à escola e têm maior expectativa de concluir o ensino superior. “O desenvolvimento destas competências pode ajudar a reduzir as desigualdades entre os alunos, pois o seu impacto positivo no desempenho académico é semelhante para diferentes grupos.” E o período da adolescência – em que os jovens estão “mais adaptáveis e recetivos à aprendizagem” – é ideal para o fazer.

Estas são algumas conclusões do Inquérito Sobre Competências Sociais e Emocionais (SSES, sigla inglesa), dirigido a alunos entre os 10 e os 15 anos. Foi realizado pelo Centro de Pesquisa e Inovação Educacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Mostra, sobretudo, que estas competências são essenciais não apenas por si só, mas porque influenciam o bem-estar e o desempenho educativo, ajudando assim a reduzir outras desigualdades.

O estudo reúne dados de 2023, de uma amostra de 3000 alunos, 500 professores e 75 diretores de escola, por cada uma das 16 regiões (cidades e países) participantes, e dados de mais sete regiões que só participaram em 2019. Em Portugal, a região participante foi Sintra. Mas os dados recolhidos ficaram aquém dos parâmetros técnicos, por isso, os resultados devem ser interpretados com cautela.

Olhando para os dados portugueses, não existem diferenças significativas entre os alunos de 10 e 15 anos no que toca à persistência, resistência ao stress e responsabilidade, tal como acontece lá fora. Mais preocupante, segundo os investigadores, é o facto de 37% dos alunos de 10 anos e 13% dos alunos de 15 anos terem dito que sofreram bullying pelo menos algumas vezes por mês, nos 12 meses que antecederam o inquérito, em 2019.

As expectativas de conclusão do ensino superior, em Portugal, são das mais baixas entre os participantes. Em Sintra, 60% dos alunos de 15 anos têm essa ambição. Uma percentagem ligeiramente inferior à registada em Otava (Canadá, 65%) e Houston (Estados Unidos, 68%), mas muito mais reduzida do que a proporção máxima observada, no município de Suzhou (China), de 91%.

Tendo em conta todas as regiões participantes, 84% dos jovens de 15 anos tem a ambição de completar estudos superiores, mas entre os mais desfavorecidos, a percentagem desce para os 75%, e para 74% entre os alunos com baixos desempenhos. A expectativa quanto ao futuro está relacionada com as competências sociais e emocionais. Os adolescentes mais curiosos têm ainda mais expectativas de frequentar o ensino superior, porque o veem como “um sítio em que o seu desejo de conhecimento pode ser satisfeito”.

O relatório “Social and Emotional Skills for Better Lives” mostra como a escolha da carreira está “alinhada com determinadas competências sociais e emocionais”. Assim, os alunos de 15 anos que se imaginam numa profissão ligada às ciências, à tecnologia e à engenharia reportam elevados níveis de curiosidade e criatividade. Os que optam por carreiras na área da saúde revelam curiosidade, persistência, responsabilidade e empatia. Por último, os jovens cuja ambição é ter um negócio próprio mostram mais assertividade, otimismo, criatividade e energia. Quase metade dos inquiridos (48%) afirma que muito provavelmente vai criar um negócio.

O que a escola pode ensinar
Existem desigualdades ao nível das competências sociais e emocionais dos alunos. A boa notícia é que a escola pode fazer algo para reverter esta situação. “Empatia, metacognição, cooperação, autocontrole, assertividade, resistência ao stress, controle emocional, resolução de problemas sociais e autoeficácia estão entre as competências mais ensináveis”, realça o estudo.

Na generalidade das regiões analisadas, os alunos mais velhos são menos otimistas, têm menos confiança e energia. Características fortemente associadas à saúde e ao bem-estar. Os investigadores escrevem que “em termos de energia, a adolescência é marcada por atrasos no sono e na hora de acordar, muitas vezes deixando os padrões de sono dos adolescentes desalinhados com as expectativas das escolas e da sociedade em geral de acordarem cedo”.

Entre oito e dez horas é o tempo recomendado de sono na adolescência. No entanto, apenas um quarto dos alunos reporta dormir pelo menos oito horas por noite e 14% nunca dorme esse tempo. Ou seja: metade dos alunos inquiridos não dorme o suficiente.

Além do sono, o SSES questionou os alunos sobre hábitos alimentares e exercício físico, dois preditores do estado de bem-estar psicológico das crianças e jovens. Nestas idades, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a prática de atividades físicas de intensidade vigorosa pelo menos três vezes por semana. Um terço dos adolescentes inquiridos não cumpre esta orientação.

Quanto aos hábitos alimentares – cuja ligação à satisfação com a vida e à imagem corporal é reconhecida – aproximadamente metade dos alunos de 15 anos toma o pequeno-almoço todos os dias. Contudo, um terço falha esta importante refeição da manhã. Apenas quatro em cada dez alunos afirma comer fruta e vegetais diariamente, na generalidade das regiões analisadas. A OMS recomenda o consumo de cinco porções de fruta e vegetais diários. Cerca de metade dos inquiridos não come estes alimentos em quantidade suficiente.

“As competências sociais e emocionais devem ser medidas para avaliar a eficácia dos esforços para desenvolver estas mesmas competências e reduzir as disparidades entre os alunos”, concluem ainda os autores deste estudo. Partilhar informações objetivas sobre bem-estar emocional com os alunos, num ambiente de apoio na escola, “pode ajudá-los a combater autoconfianças negativas”.


ANDREIA LOBO
É jornalista especializada em educação desde 2007, e nos últimos anos tem colaborado na produção de conteúdos do EDULOG, o think tank para a educação da Fundação Belmiro de Azevedo. Integrou projetos de investigação e divulgação científica nas áreas da educação para os media e da aprendizagem da leitura e da escrita. Antes, trabalhou em meios de comunicação social como o jornal A Página da Educação e o portal EDUCARE.PT.

Artigos relacionados

Voltar aos artigos