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Autocuidado: aprender a cuidar de nós

A discussão sobre autocuidado está aberta: ouvimos falar sobre o tema nas redes sociais, nos anúncios televisivos e em grandes cartazes na rua. Muitas pessoas partilham sobre as suas rotinas diárias de alimentação, higiene, treinos físicos e sono, mas existirá uma fórmula? E… existindo, é igual para todos?

Vivemos uma fase em que o bem-estar e a saúde mental estão na ordem do dia. Em contexto clínico, trabalho com adolescentes e jovens adultos e é evidente a crescente narrativa sobre mudanças de hábitos e rotinas exigentes que prometem melhorias no corpo e mente. É, também, evidente a frustração associada ao insucesso das mudanças abruptas na rotina e, aquilo que seria uma caminhada para o bem-estar, torna-se um fardo. Mas… porquê?

Um dos assuntos que mais surge nestas narrativas é o da produtividade, já que parece haver uma ideia muito generalizada de que aproveitar cada minuto para se ser produtivo e se desenvolver competências, melhorar o físico, a mente e o sono é a fórmula para chegar a um desejado patamar de potencialidade e bem-estar.

O que a ciência nos mostra é que, num mundo cada vez mais veloz e em constante mudança, precisamos de abrandar, adicionar menos coisas à nossa rotina – que é, já por si, exigente. Há jovens que se sentem muito frustrados com o facto de não conseguirem ter uma rotina de treino, leitura e meditação antes das nove da manhã.

É normal – um adolescente precisa dormir entre oito e dez horas por noite, tem de ir às aulas, estudar, estar com amigos e ir aos ensaios de dança ou aos treinos de voleibol. É necessário descansar e é isso que o cérebro pede.

Somos humanos, o nosso cérebro tem recursos limitados, vivemos um dia a dia diferente e todos temos necessidades individuais. Além disso, a adolescência é uma fase em que precisamos de ações para melhorar a nossa saúde mental e a nosso bem-estar geral, diferentes daquelas de que os adultos precisam, porque são, efetivamente, momentos de vida muito distintos – não existe, de facto, uma fórmula mágica que nos ajude a todos.

Town et al. (2024) analisaram o papel da autogestão, autocuidado e autoajuda em adolescentes com problemas emocionais. As estratégias associadas ao autocuidado foram, entre outras: procurar oportunidades para experienciar momentos de empatia, compaixão, alegria e perdão; descansar; usar estratégias de relaxamento; meditar; procurar ajuda quando necessário – seja recorrendo a família, amigos ou profissionais de saúde.

Concluiu-se, assim, que a prática de autocuidado não é uma intervenção, mas envolve, de facto, um processo ao longo do tempo para gerir e prevenir sintomatologias de deterioração da nossa saúde mental ou física.

Haver uma crescente preocupação com estas questões é um grande passo – temos, apenas, de nos lembrar que todas as fases da vida se encaixam como que peças de uma corrente de metal.

O objetivo deve ser viver uma vida saudável e prevenir dificuldades nas etapas seguintes, sempre conscientes, no entanto, de que nem todos precisamos das mesmas atividades e de que descansar, não fazer nada, estar em contacto com a natureza ou numa roda cheia de amigos e gargalhadas fará muito mais por nós – pelo nosso desenvolvimento pessoal, autoconhecimento e, consequentemente, pela nossa saúde mental – do que um dia repleto de exigências alguma vez conseguirá.


Maria Guerreiro

MARIA GUERREIRO

Licenciada em Psicologia e Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Com formação em avaliação psicológica e prática clínica, intervém junto de crianças, jovens e respetivas famílias.

Autora de artigos de opinião para pais no âmbito da psicologia clínica.

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