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Há duas décadas que a Sociologia da Infância vê o recreio da escola como um laboratório social complexo. Distingue-se de outros espaços de socialização, como a família ou a sala de aula, por ter menos regulação adulta. “No recreio há mais margem de autonomia para as crianças se organizarem na sua vida social”, observa Catarina Tomás, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade NOVA de Lisboa. Neste contexto de liberdade, “as crianças constroem regras próprias, geram consciência e produzem a cultura da infância”.
Espaço de ‘currículo oculto’, o recreio funciona como uma espécie de escola paralela. “É através das brincadeiras e das interações que as crianças aprendem a negociar, a cooperar, a lidar com as exclusões, a assumir lideranças e a gerir disputas”, explica a socióloga. “Aprendizagens que não fazem parte do currículo formal, mas são fundamentais para a construção de competências sociais, éticas e políticas.” E são “também essenciais à participação na vida coletiva das crianças e ao exercício de cidadania.”
Todo este potencial é, muitas vezes, desaproveitado, como têm constatado vários estudos sobre as culturas da infância. O recreio continua a ser entendido como um “tempo morto” ou um intervalo entre as “aprendizagens verdadeiras”, as da sala de aula. Por unanimidade, quem estuda o que se passa no recreio confirma que não lhe é dado o “devido valor”. Em muitos casos, “o recreio é desenhado e organizado também a partir de uma perspetiva adultocêntrica”: “Sem equipamentos para incentivar múltiplas formas de brincar”, “sem espaços verdes” e “subordinado a lógicas disciplinares e hegemónicas”, enumera Catarina Tomás.
A relevância do recreio aumenta quando se constata que é também lá que os papéis de género se adquirem e se constroem socialmente. Recuamos à explicação de Manuel Sarmento, segundo a qual “o processo de socialização das crianças envolve a dimensão vertical (feita pelos adultos) e a horizontal (realizada pelas interações entre pares)”. “A própria noção de género é construída socialmente", contextualiza o professor catedrático no Instituto de Educação da Universidade do Minho. Ora, o recreio é precisamente o espaço privilegiado de socialização horizontal: “As crianças transmitem valores, posições e perceções de género umas às outras, reelaborando o universo simbólico em que circulam.”
Identificação com o género
A identificação com o género decorre em grande parte da segregação que acontece nas brincadeiras do recreio, diz Manuel Sarmento. “As crianças mais novas, sobretudo, brincam rapazes com rapazes e meninas com meninas." Embora existam "transversões" – meninos que brincam mais no espaço das meninas ou meninas que se juntam aos jogos mais fisicamente intensos dos rapazes – “a identidade de género é largamente definida pela identificação com o grupo das brincadeiras”.
As interações no recreio refletem as relações de poder e as desigualdades de género, presentes no meio social. A evidência mais clara desta dinâmica é a segregação espacial. Sandra Saleiro explica: “É tão familiar ver todos os dias os mesmos rapazes a jogar futebol no campo com as melhores condições. E ver outros rapazes, que não corporizam essa masculinidade tão dominante, ou as raparigas em espaços mais periféricos e indiferenciados (porque não foram desenhados para uma atividade específica) que acabamos por considerar natural.”, constata a socióloga do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa.
A hegemonia de práticas como o jogo de futebol gera dinâmicas de exclusão e reforça desigualdades de género. Catarina Tomás reforça esta ideia: “As crianças que não participam nestas práticas tendem a ser empurradas para as margens, tanto no sentido físico do recreio, como no plano social e simbólico.”
Tomar consciência de que a segregação espacial não é natural é o primeiro passo para promover a igualdade no recreio, diz Sandra Saleiro. Os sociólogos têm feito várias recomendações à comunidade educativa para repensar a organização do recreio, incluindo o tipo de equipamentos a comprar e a forma como os distribuir no espaço com uma “perspetiva de género”.
A introdução das temáticas do género nos currículos de formação inicial e contínua de professores é entendida como crucial. “Para que os profissionais possam adquirir as competências necessárias e deixem de reproduzir estereótipos de forma inconsciente”. Sem competências de género, a tendência, segundo a socióloga, será a reprodução de estereótipos de forma inconsciente. A formação, alerta, não poderá deixar de fora os auxiliares educativos, que tradicionalmente acompanham os alunos durante o tempo passado no recreio.
Com a proibição do uso de telemóveis, que está a levar algumas escolas a repensar os recreios e as atividades, Sandra Saleiro entende que este é um "momento ótimo para pensar a organização deste espaço a partir de uma perspetiva de género”. Que tipo de equipamentos comprar, como os distribuir no espaço?
Ferramentas e recursos existem em Portugal. A socióloga recomenda os “Guiões de Educação, Género e Cidadania”, encomendados pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e o guia resultante do projeto Local Gender Equality. Ambos os documentos contêm princípios e exemplos de iniciativas pedagógicas para a igualdade.
Segundo Sandra Saleiro, a comunidade educativa tem agora pela frente o desafio de “ouvir as crianças e os jovens sobre o que de facto desejam para os seus recreios”. Com um “pensamento organizado com uma perspetiva de género”, seria mais fácil encontrar “soluções em que houvesse uma maior partilha entre todos os rapazes e todas as raparigas, uma partilha mais democrática”.
ANDREIA LOBO
É jornalista especializada em educação desde 2007, colaborou entre 2016 e 2024 na produção de conteúdo para o EDULOG - Fundação Belmiro de Azevedo. Integrou projetos de investigação e divulgação científica nas áreas da educação para os media e da aprendizagem da leitura e da escrita. Antes, trabalhou em meios de comunicação social como o jornal A Página da Educação e o portal EDUCARE.PT.