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Misoginia: (des)valor de ser mulher

Há quem continue a querer viver segundo a organização social do patriarcado, não se conformando com o facto de que o homem branco já não é o dono do poder e de que a mulher deixou de ser submissa, já não assume a casa e os filhos como área exclusiva da sua atuação e não aceita deixar a vida pública para segundo plano.

É imensurável a admiração que sinto pelos excelentes humoristas portugueses, não querendo excluir os que habitam para lá das nossas fronteiras. Sem descomposturas, arrogância ou discursos moralistas, expõem, de uma forma cáustica e reveladora, atitudes e discursos camuflados de verdade. Numa viagem para o trabalho, ouvi Joana Marques, na rubrica Extremamente desagradável, comentar uma entrevista realizada a Zorlak (nome verdadeiro Ricardo Sousa), que se intitula o melhor streamer do mundo. Fiquei a saber que esta pessoa, que, até àquele momento era, para mim, anónima, é conhecida pelos conteúdos de Counter-Strike: Global Offensive (CS: GO) e League of Legends, sendo considerada uma figura carismática e respeitada no jogo CS: GO, em Portugal. Para leigos/as neste tema, Zorlak, de 43 anos, dedica muito do seu tempo a ensinar os jovens a jogar o referido jogo online.

A capacidade de, em cada momento, refletir e ponderar o que deve ou não ser verbalizado retrocedeu, nos últimos tempos. Não consigo deixar de ficar perplexa com as múltiplas alarvidades que são, diariamente, proferidas de forma generalizada – nomeadamente por figuras públicas. De repente, todos/as podem vociferar impulsivamente tudo o que se lhes ocorre, independentemente do contexto e do público-alvo.

O desenvolvimento do ser humano anda de mão dada com o amadurecimento do córtex pré-frontal, estrutura cerebral responsável pelas funções executivas superiores, incluindo planeamento, tomadas de decisão, controlo de impulsos, comportamentos sociais, empatia e regulação emocional. Esta região cerebral amadurece tardiamente (entre os 25 e os 30 anos). Por isso, somos tolerantes quando crianças, adolescentes e até jovens de tenra idade agem por impulso ou se expressam de uma forma pouco polida, ou mesmo grosseira.

No entanto, ouvir alguém que se intitula o maior streamer do mundo afirmar “Sou o maior consumidor de badalhocas, sempre consumi muitas badalhocas na minha vida.” causou-me, entre muitas outras sensações, um grau muito elevado de choque e perturbação. Esta personagem, que afirma dominar técnicas ao nível dos jogos online quer, também, transmitir aos jovens rapazes dicas de como se relacionar com o sexo oposto, reduzindo a mulher a uma coisa que pode ser manipulada segundo os desígnios masculinos, não esquecendo que “alguém tem de as comer, alguém tem de as cobrir”. São estas mensagens misóginas que vão sendo transmitidas descaradamente, talvez com o intuito de assumir o papel de humorista (ou até comentador de entretenimento), mas a misoginia digital é um fenómeno crescente que, vestindo a capa de liberdade de expressão, atenta contra a dignidade das mulheres e a construção de uma sociedade justa e igualitária.

Há quem continue a querer viver segundo a organização social do patriarcado, não se conformando com o facto de que o homem branco já não é o dono do poder e de que a mulher deixou de ser submissa, já não assume a casa e os filhos como área exclusiva da sua atuação e não aceita deixar a vida pública para segundo plano. Muitas foram as mulheres que encetaram lutas e morreram, até, para sair deste reduto, e não querem voltar a ser tratadas e olhadas como servas disponíveis para todo o tipo de tarefas, nomeadamente sexuais. Contudo, aqueles que pensam que mudarão as mulheres encaixando-as à força nas suas estruturas mentais retrógradas estão plenamente equivocados.

Se para alguns, a mentalidade é a de questionar se algo existe nesta vida que algum saber requer é a ciência de entender como pensa uma mulher (como cantam os Quatro e Meia) e lamentar que a escola não lhes tenha dado ensinamentos neste âmbito, para outros… a fórmula é fácil – se uma gaja te der um não é estúpida, nas palavras perigosíssimas de ZorlaK. Na verdade, entender as mulheres para quê? Ainda citando o streamer, uma gaja ocupa-te tempo e dinheiro. Quando acabas com ela poupas tempo e dinheiro.

No SIG - Comissão para a cidadania e igualdade de género, em letra garrafais, podemos ler: O silêncio torna-nos cúmplices. É nosso dever dar voz ao silêncio, denunciando!


AdrianaCampos

ADRIANA CAMPOS

Licenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Após vários anos de trabalho em contexto escolar, desenvolve atualmente a sua atividade profissional, na Divisão da Educação da Câmara Municipal de Vila do Conde.

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