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As crianças podem tomar café?

A história que vou contar passou-se comigo numa consulta e é apenas um exemplo entre milhares. Um exemplo de como os pais desconhecem ou ignoram os efeitos de alguns produtos no organismo dos seus filhos. E digo ignoram porque, muitas vezes, apesar de serem por mim informados, continuam a permitir que as crianças os ingiram.

Há uns tempos atrás, apareceu no meu consultório um indivíduo de trinta e muitos anos, funcionário de quadro técnico bancário (para se perceber que não era um iletrado), cujo objetivo era perder peso.

Na história alimentar que lhe fiz, interroguei-o acerca do número de cafés que tomava, não porque este contribua significativamente com calorias, mas para saber a quantidade de açúcar que eventualmente poderia contribuir para a ingestão calórica diária. Embora me tenha respondido que o não usava no café, referiu que tomava sete a oito por dia. Sabendo que esta bebida pode trazer alguns benefícios para a saúde se forem tomadas duas ou três chávenas por dia, mas que em quantidade superior pode causar agitação, irritabilidade e insónias, disso informei o paciente e aconselhei-o a reduzir a dose diária.

Disse-me que se o fizesse teria que substituir o café por uma bebida de cola (cujo nome omito para não criar mal-entendidos), uma vez que era completamente dependente da cafeína. Perante tal inflexibilidade em mudar de hábitos, sugeri que então ao menos usasse a versão light ou diet que pouco ou nada influenciariam o plano alimentar para perda de peso.

Rematou convictamente desta forma: "Não, não! Não vou deixar de ter essa bebida em casa porque tanto eu como o meu filho somos viciados!..." Ao que eu, já a imaginar algo, perguntei: Que idade tem o seu filho? A resposta veio pronta e surpreendente: "Dois anos e meio". Fiquei atónita, embora na realidade, não fosse uma surpresa total. Perguntei então: Tem noção do que acabou de me dizer? Há pouco referiu-me que se não tomasse sete ou oito cafés por dia, teria que os substituir por cola para "funcionar". Percebe agora o que está a dar ao seu filho?

Infelizmente, este caso não é a exceção que confirma a regra, é mesmo a regra! Nos festivais aéreos da Red Bull vi inúmeras crianças a beberem esta bebida como água, apesar de conter mais do dobro da cafeína de uma cola e tanta como alguns cafés! Efetivamente, raros são os lares onde colas ou ice-teas não existem no frigorífico e despensa, como bebida que faz a vezes da água ou mesmo do leite. Além de contribuírem para o aumento de peso por serem calorias líquidas e de muitas vezes substituírem o leite ou os iogurtes privando o organismo de proteínas, cálcio, fósforo e outros nutrientes, estas bebidas contêm cafeína ou teína, substâncias estimulantes com ação a nível do sistema nervoso central e com efeitos deletérios na saúde das crianças.

É natural que as crianças pareçam ansiosas, irritadas, hiperativas ou tenham insónias se consumirem este tipo de bebidas. Não pode é parecer natural que os pais o permitam!

Paula Veloso

Nutricionista e autora de Dietas sem Dieta, Dieta sem Castigo e Peso, uma questão de peso.

Artigo originalmente publicado no Educare.pt

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