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O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) acompanhou, como nenhuma outra organização, o impacto da pandemia na educação das crianças e jovens. Em janeiro de 2022, soava o alerta para a gravidade da extensão da perda das aprendizagens no mundo. O diretor-geral para a Educação, Robert Jenkins, admitia que, dois anos de interrupções no ensino, tinham gerado “uma perda quase sem recuperação para a escolaridade das crianças”. Mais de dois triliões de horas de aulas presenciais tinham sido perdidas.
Os atrasos e os retrocessos nas aprendizagens foram mais graves nos países mais pobres e entre as crianças oriundas de meios socioeconómicos desfavorecidos. O encerramento das escolas nos países de rendimento baixo e médio rendimento elevou para 70% a percentagem de crianças de 10 anos incapazes de ler ou entender um texto simples, por comparação a 53% antes da pandemia. Entre as diferentes faixas etárias escolares, os alunos mais velhos foram mais capazes de aprender sozinhos em casa do que os mais novos.
Estimativas da Unicef mostram, por exemplo, que as crianças do ensino primário na Etiópia perderam entre 30% e 40% do que teriam aprendido a Matemática num ano letivo normal. No Texas (EUA), dois terços das crianças do 3.º ano tinham notas abaixo do nível esperado nos testes em Matemática em 2021, face a metade em 2019. E, na África do Sul, as crianças em idade escolar estavam entre 75% e 100% de um ano letivo atrás do que deveriam.
Os primeiros dados internacionais sobre o impacto da COVID-19 nas escolas portuguesas surgiam em setembro de 2021. O relatório “Education at a Glance 2021”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), apontava os alunos portugueses do 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º ano) como aqueles que ficaram mais tempo sem aulas presenciais. Um total de 97 dias, cinco dias mais face à média dos países da OCDE.
Mais de 635 milhões de alunos continuavam sem ir à escola em março de 2022. As mazelas deixadas pela ausência de aulas presenciais tornam-se evidentes num estudo divulgado em abril de 2022 pelo McKinsey Global Institute, que colaborou com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na criação de ferramentas para o ensino remoto. Em média, os estudantes de todo o mundo estavam oito meses atrasados em relação ao ponto em que estariam, se não tivesse havido uma pandemia. Apesar do atraso nas aprendizagens não ser igual em todos os países, os investigadores identificaram semelhanças em três grupos.
O primeiro, o dos países com elevados desempenhos escolares antes da COVID-19, onde se estima que os alunos possam estar cerca de um a cinco meses atrasados. É o caso da América do Norte e da Europa, onde se identificam, em média, atrasos de quatro meses. O segundo trata-se do grupo dos países de rendimento baixo onde os alunos podem estar cerca de três a oito meses atrasados nas aprendizagens. Na África Subsariana, a média de atraso é de seis meses. E, por último, o grupo dos países de rendimento médio, com níveis de desempenhos escolares pré-COVID moderados, onde os alunos estão, em média, entre nove e 15 meses atrasados, caso da América Latina e Sul da Ásia, onde os alunos estão, em média, 12 meses atrasados.
As evidências reunidas no estudo do McKinsey Global Institute corroboram as conclusões de vários estudos nacionais de que a pandemia também aumentou as desigualdades educativas no interior dos sistemas de ensino. Nos EUA, por exemplo, ampliaram-se as disparidades entre escolas maioritariamente negras e brancas. E, na Etiópia, também se agravaram as preexistentes divisões urbano-rurais.
Recuperação: onde estamos?
No relatório “Where are we on education recovery?, a organização internacional faz um balanço sobre o que está a ser feito para compensar o tempo letivo perdido. As informações recolhidas têm por base a situação de 90 países que têm em curso planos de recuperação das aprendizagens. Apesar do dinamismo destes sistemas educativos, a Unesco mostrava-se preocupada com a escala de implementação das medidas, distinguindo medidas aplicadas a nível nacional, regional e de escola.
Apenas 21% dos países estão a implementar aulas individualizadas e 15%, programas de tutoria, a nível nacional e regional. Isto “porque tais medidas exigem um maior investimento de recursos”, refere o relatório. Estratégias como aumentar o tempo de instrução e a aceleração dos programas de aprendizagem foram identificadas como sendo as mais comuns, com cerca de 40% dos países a implementá-las a nível nacional e regional.
Os sistemas educativos eram aconselhados, nesse relatório, a direcionar o esforço da recuperação para os conteúdos perdidos e para as aprendizagens essenciais, consoante o nível de escolaridade. A Unesco deixava também uma espécie de ultimato: “Coletivamente, precisamos fazer com que a educação e a aprendizagem sejam uma prioridade política. Devemos apoiar a recuperação da educação em escala, ou perderemos esta geração de crianças e jovens”.
Em julho de 2023, o Banco Mundial fazia um novo retrato sobre o esforço empreendido em 60 sistemas educativos. Assim que as escolas reabriram, alguns países passaram à ação, lê-se no “ Learning Recovery to Acceleration: A Global Update on Country Efforts to Improve Learning and Reduce Inequalities ”. Entre as iniciativas mais comuns para recuperar e acelerar as aprendizagens, os países participantes reportavam ter identificado as crianças que tinham ficado fora da escola, feito diagnósticos aos conhecimentos dos alunos e implementado iniciativas para a recuperação das aprendizagens, tornando-se muitas destas em investimentos a longo prazo, com o objetivo de acelerar as aprendizagens.
“Infelizmente, muitos países limitaram-se a voltar apenas ao normal, falhando na coordenação de políticas e implementando medidas a curto termo”, apontam os especialistas do Banco Mundial. “Uma clara indicação de que as sociedades não interiorizaram a magnitude da crise.” Além disso, “o investimento em educação decresceu, como se comprova pela queda dos gastos públicos com a educação desde 2020”. E estes são fatores que podem comprometer a eficácia dos planos de recuperação.
ANDREIA LOBO
É jornalista especializada em educação desde 2007, e nos últimos anos tem colaborado na produção de conteúdos do EDULOG, o think tank para a educação da Fundação Belmiro de Azevedo. Integrou projetos de investigação e divulgação científica nas áreas da educação para os media e da aprendizagem da leitura e da escrita. Antes, trabalhou em meios de comunicação social como o jornal A Página da Educação e o portal EDUCARE.PT.
Andreia Lobo
Andreia Lobo
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