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Qual o futuro do ensino à distância?

As aulas online substituíram temporariamente o ensino presencial, por força do atual contexto pandémico. E um novo modelo instalou-se nas escolas com todas as suas potencialidades e fragilidades. Será um sistema que veio para ficar? O país estará preparado?

É consensual. Nada substitui o ensino presencial. Contudo, o ensino à distância tornou-se uma realidade, um regime aplicado durante o confinamento, devido às restrições e à evolução pandémica. Um modelo, segundo a Associação Nacional de Professores (ANP), adequado ao contexto e que exige sinergias para que resulte. “O tempo de aprendizagem e o tempo dos alunos é no agora. Temos a responsabilidade de mitigar os efeitos das escolas fechadas e promover a construção de ferramentas de aprendizagens”, refere, ao EDUCARE.PT, Paula Carqueja, presidente da ANP. Mas sem planeamento, as desigualdades acentuam-se.

O novo sistema funciona graças ao empenho, dedicação e resiliência de todos os que lidam diretamente com os alunos, e à capacidade de organização das direções escolares. A comunidade escolar está a responder, consoante as condições e recursos disponíveis. “Também a comunidade educativa, apesar das inúmeras dificuldades, tem que se adaptar e organizar para colaborar com a comunidade escolar para que este processo resulte e com sucesso, pois não sabemos quando e se vai terminar”, sustenta Paula Carqueja.

Este regime não é uma novidade, foi implementado em pouco tempo, em março de 2020, e manteve-se até ao final do ano letivo de 2019-2020. Paulo Guinote, professor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação, autor do blogue “O Meu Quintal”, recorda que o ensino à distância acabou por ser reconhecido como um “remendo” ou um “remedeio” para que a maioria dos alunos tivesse “qualquer coisa” que os mantivesse ligados às escolas. “Mas percebeu-se depressa que o entusiasmo com os meios digitais implica muito mais do que ligar um computador e este à net para se tornar um verdadeiro modelo alternativo de ensino”. “Na primeira vaga da pandemia, ‘funcionou’ no sentido de que existiu, mas ficou muito longe de funcionar de forma satisfatória”, comenta ao EDUCARE.PT.

Alexandre Henriques, professor e autor do blogue ComRegras, também fala num remedeio. “Limitar a escola a um ecrã é como comer comida sem sal, mantém-nos vivos, mas é um desconsolo”, diz ao EDUCARE.PT. Por várias razões. “Uma das maiores vantagens das escolas é toda a socialização envolvente, é nas escolas que as crianças e jovens se tornam socialmente aptos, é nas escolas que surgem relacionamentos afetivos, é nas escolas que o bom e o mau são vividos todos os dias, é nas escolas que se vive uma das partes mais importantes da vida de cada um, que nos tornamos homens e mulheres”. Nada disso é possível no ensino à distância, por isso, em sua opinião, nunca deve ser visto como uma prioridade.

A ANP conhece as fragilidades do modelo. Menos possibilidade de diversificar estratégias de ensino, maiores dificuldades em desenvolver competências no domínio dos valores e das relações. É mais difícil exigir aos alunos um verdadeiro compromisso com as aprendizagens e o trabalho colaborativo e de grupo é mais complexo. Gerir tempos é um constrangimento, as avaliações formativa e contínua acentuam as fragilidades. E a maioria dos alunos não está preparada. “Falta a relação com o outro, falta a socialização diária, a pertença a um grupo. A aprendizagem não é, nem pode ser, um ato isolado”. Paula Carqueja salienta, a propósito, que na sala de aula, “há um sentimento de pertença que ajuda a moldar as crenças dos alunos sobre si mesmos, sobre o seu potencial e o contexto de aprendizagem, há a presença, o olhar atento do professor que os motiva e incentiva, em permanência, partilhando o mesmo espaço físico”.

Há outros problemas que evidenciam desequilíbrios. “A maior fragilidade, e todos temos a certeza, é que apesar de termos uma escola para todos, as oportunidades e o acesso dos nossos alunos não são iguais, quer pelos contextos geográficos, quer pelos contextos familiares. O mesmo reflete-se nas condições de acesso ao mundo digital. As diferenças são, lamentavelmente, preocupantes e com o ensino à distância acentuam-se ainda mais”, reforça Paula Carqueja.

O distanciamento limita o processo ensino-aprendizagem a vários níveis. Paulo Guinote destaca algumas questões como a fiabilidade da avaliação, “porque as possibilidades de fraude são evidentes”, ou até mesmo pensar-se que o ensino à distância é uma réplica do ensino presencial em termos de abordagens pedagógicas ou de gestão de tempo. A sua perspetiva é clara. “O ensino à distância não pode limitar-se a ser uma transmissão de vídeos com professores a explicar as matérias como se estivessem numa aula, porque assim a interação com os alunos ainda é menor. E muito menos pode corresponder a uma sessão de ‘sessões síncronas’ como se fossem aulas convencionais”.

Pensar “fora da escola”

“O melhor ensino é o ensino presencial, o ensino à distância será sempre um remendo, mas não deixará nunca de ser ensino”, diz Alexandre Henriques. Paula Carqueja realça aspetos positivos deste modelo: a capacidade de reinvenção e de ajustar formas de ensinar e de aprender, a procura de estratégias de prevenção do abandono escolar, a aproximação das famílias ao processo educativo dos filhos, a necessidade de planificar e comunicar de formas contextualizadas. “Não sendo o melhor caminho para uma situação normal, atendendo ao contexto atual, é a melhor escola do presente e quiçá de um futuro próximo, com a expetativa de que logo desligamos o botão para entrar na escola física”, comenta a presidente da ANP.

Pensar de modo diferente, mais exigente na fase inicial de planificação, na produção de materiais de apoio e na conceção de ferramentas fiáveis de avaliação. Paulo Guinote adianta que tudo isso é necessário até para não haver uma réplica à distância do ensino mais tradicional com menor qualidade. Há outros fatores a considerar como o aumento de desigualdades, desequilíbrio de oportunidades. Nem todos têm computador em casa, nem todos têm acesso à internet em casa, nem todos têm casas com condições para que o ensino à distância funcione.

A ANP adianta que será interessante promover alternativas e pensar-se “fora da escola”, por exemplo, no ensino misto como um novo modelo de escola se refletir um benefício acrescido para a aprendizagem e nunca como um recurso para mitigar dificuldades. A funcionar, para Paula Carqueja, deveria ser a partir do 3.º Ciclo. Poderia ser uma oportunidade para criar turmas com menos alunos, não esquecendo que tudo isso implicaria estratégias para aplicar conteúdos de forma igualitária.

Paula Carqueja sublinha que seria interessante e desejável ouvir e sentir o impacto que este modelo gera na classe docente e nos seus profissionais e, eventualmente, monitorizar um projeto-piloto em escolas diversificadas nos mais díspares contextos, de forma a aferir e validar o modelo misto de ensino. “Este pode ser o momento desafiador e a oportunidade para a educação, a fim de se pensarem e promoverem novos paradigmas educativos, mas sempre alicerçado numa escola para todos, promotora de equidade, designadamente de indicadores de acesso, frequência e de sucesso”, refere.

Fazer uma previsão fundamentada, neste momento, não é possível, para Paulo Guinote. Exceto no Ensino Superior, no qual o ensino à distância se tem vindo a afirmar como uma modalidade complementar ou até mesmo alternativa ao ensino presencial, permitindo desenvolver atividades diversificadas com um maior número de alunos. “No Ensino Secundário e, em especial, no Ensino Básico parece-me que só será um recurso em situações de emergência ou como ferramenta auxiliar do ensino presencial”. No Básico e nos primeiros anos de escolaridade, em seu entender, o ensino presencial é insubstituível “pela dimensão humana e de empatia que a relação pedagógica deve envolver nos anos iniciais de formação dos alunos”.

“Um plano B ou um ator secundário”

A tecnologia invade as escolas. É um facto. E deve ser uma aliada, mas não, observa Alexandre Henriques, decidir como um sistema de ensino deve ser implementado. Até porque, refere, a presença física na sala de aula mantém todas as suas virtudes. “É essencial a interação entre pares, a interação com os professores, pois a fluência das aulas é completamente diferente para melhor, no ensino presencial”. “O ensino à distância deve ser visto como um plano B, ou um ator secundário, mas não deve ser ignorado ou desprezado. O ensino à distância permite que todos possam ter acesso à Educação, independentemente da sua localização ou mesmo idade do aluno”, diz.

O autor do blogue ComRegras realça que não faz parte do grupo dos que amaldiçoam o ensino à distância, sem ele milhões de alunos em Portugal e no mundo estariam completamente alheados da escola. Este modelo, realça, permitiu adquirir competências digitais nos professores e nos alunos que não seriam possíveis em 10 anos.

“Hoje, os professores já recebem trabalhos dos alunos em plataformas que antes não utilizavam, os alunos já acedem a inúmera informação credível online que antes não existia. Os professores estão hoje mais predispostos a aceitar alternativas de práticas que antes eram impensáveis entrar nas suas salas de aula. Desmistificou-se um pouco a ideia de que a tecnologia não é útil para uma aula, é e pode ser, desde que o casamento entre o ensino presencial e tecnologia seja aceite por todos”, realça Alexandre Henriques.

O passado ajuda a pensar o presente e a preparar o futuro. “A partir de agora, será necessário ter preparado cenários para aplicação imediata na Escola, e na capacitação digital de todos, educadores, professores, alunos e pais, para uma mitigação da iliteracia digital na sociedade”, avisa Paula Carqueja. As escolas estão e sempre estiveram preparadas para formarem os alunos em todas as dimensões humanas, sem deixar ninguém para trás, de uma forma presencial.

No momento presente, para Alexandre Henriques, a realidade é o que é, mas falta uma preparação condigna, com um ano de pandemia, com a aprovação de verbas para comprar computadores quatro dias antes do regresso às aulas no 2.º período. “Os professores estavam prontos, as estruturas das escolas estavam prontas, os alunos estavam prontos, o Ministério da Educação e o Governo não estavam prontos e não fizeram aquilo que lhes era exigido e que tinha sido prometido. Talvez por isso tenham demorado tanto tempo a decidir o que era óbvio para toda a gente…”, comenta.

A flexibilidade em termos de métodos de trabalho, a capacidade de envolver um maior número de alunos, a diversidade de temáticas e materiais que podem ficar disponíveis por tempo indeterminado, são pontos a favor, para Paulo Guinote. Porém, neste momento, em seu entende, ainda não há condições para generalizar este modelo. “Não porque crie necessariamente novas desigualdades, mas porque acentua as que já existem e as tornam mais evidentes. Seja de tipo material, como a falta de acesso a equipamentos ou acesso em condições precárias, seja ao nível do capital cultural das famílias, porque muitos alunos não têm no seu contexto familiar quem esteja em condições de os apoiar”. Nas escolas, há também desequilíbrio de meios, escolas muito bem equipadas, escolas sem condições.

“Há um investimento muito avultado a fazer, não apenas na aquisição de equipamentos, mas muito em particular na sua manutenção e atualização, pois rapidamente ficam obsoletos ou, no mínimo, pouco competitivos. É um investimento que não fica para uma década sequer, exigindo meios financeiros permanentes. Não é o mesmo que comprar mesas, cadeiras e armários”, ressalva Paulo Guinote.

Se este é o futuro da Educação, a generalização do ensino à distância, como ferramenta complementar, terá, para Paulo Guinote, de passar por um período de transição, marcado pela generalização dos meios digitais de trabalho nas salas de aula, observa, que está muito longe de estar garantido por falta de meios técnicos suficientes. “Não podemos confundir o eventual sucesso de projetos já em desenvolvimento com a possibilidade de os alargar, a breve prazo, a todo o sistema público de ensino”, repara.

Sara R. Oliveira

Artigo originalmente publicado no Educare.pt

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