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O que mostra o PISA 2022 além da queda nos resultados?

Quando se procuram explicações para os resultados de 2022, a OCDE é a primeira a admitir que a culpa do declínio nos desempenhos não pode ser atribuída apenas à Covid-19. As pontuações em leitura e ciência estavam em queda antes da pandemia.

Atingir o nível de proficiência básico em matemática, leitura e ciência “é só o começo”, avisam os investigadores do PISA 2022. Vários fatores determinam as classificações dos alunos da OCDE: o apoio familiar aos alunos, a disponibilidade dos professores para ajudar e o alinhamento entre investimento e necessidades, diz a OCDE. Além da descida generalizada das pontuações, há mais a retirar desta gigantesca avaliação internacional.

A “queda sem precedentes” nos resultados a matemática entre as avaliações de 2018 e 2022 (menos 20 pontos em Portugal e menos 17 pontos em toda a OCDE) deixou de fora os alunos de 31 dos 81 países e economias participantes nesta avaliação. Austrália, Japão, Coreia, Singapura e Suíça mantiveram ou aumentaram os já elevados níveis de desempenho a matemática dos seus alunos no PISA 2022. Com classificações a variarem de 487 a 575 pontos, face à média de 472 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Dispersos por três continentes, o que têm estes países em comum? Escolas encerradas por menos tempo, durante a pandemia, menos obstáculos no ensino à distância e uma continuidade do apoio aos alunos por parte dos professores e dos pais. “Boas práticas que podem ainda ajudar a enfrentar crises futuras”, refere Mathias Cormann, secretário-geral da OCDE, no prefácio do Volume 1 do PISA 2022, intitulado “O Estado da Aprendizagem e da Equidade na Educação”. O volume que concentra as principais conclusões desta avaliação, incluindo as tabelas que comparam os resultados dos países nos três domínios.

A OCDE realça que “muitos países também fizeram progressos significativos no sentido do ensino secundário universal, fundamental para permitir a igualdade de oportunidades e a plena participação na economia”. São disso exemplo, países como Camboja, Colômbia, Costa Rica, Indonésia, Marrocos, Paraguai e Roménia, que “expandiram rapidamente a educação para populações anteriormente marginalizadas na última década”.

Dez países e economias apresentam uma grande percentagem de jovens de 15 anos com proficiência básica em matemática, leitura e ciência, e são, ao mesmo tempo, bastante equitativos: Canadá, Dinamarca, Finlândia, Hong Kong (China), Irlanda, Japão, Coreia, Letónia, Macau (China) e Reino Unido. Em Portugal, entre os 6 793 alunos de 224 escolas portuguesas que participaram no PISA, 9% dos alunos desfavorecidos conseguiram pontuar entre os melhores no domínio da matemática, comparativamente à média da OCDE de 10%.

No entanto, o estatuto socioeconómico continua a ser um preditor significativo de desempenho. Os alunos oriundos de contextos sociais e económicos mais favorecidos obtêm 93 pontos a mais em matemática do que os desfavorecidos, em média, nos países da OCDE. O fosso entre classificações atribuído às dificuldades socioeconómicas dos alunos é superior a 93 pontos em 22 países ou economias e a 50 pontos ou menos em 13 países ou economias. Os alunos nativos pontuam, em média, 29 pontos acima nos testes de matemática, face aos colegas imigrantes em todos os países da OCDE.

Proficiência a matemática
A matemática foi o domínio em foco no PISA 2022, apesar da OCDE apresentar ainda um resumo do que sabem os alunos na área da leitura e da ciência. Pelos padrões da OCDE, a proficiência em matemática “é mais do que a mera reprodução de cálculos rotineiros: “A pessoa proficiente pode raciocinar matematicamente através de problemas complexos da vida real e encontrar soluções formulando, empregando e interpretando matemática.” Em média, 69% dos alunos participantes atingiram, pelo menos, o nível 2 (básico) de proficiência a matemática; em Portugal foram 70%. Entre os melhores, a atingirem os níveis 5 e 6 nos testes do PISA, 9% dos alunos da OCDE e 7% dos alunos portugueses.

O declínio no desempenho da matemática registado entre as pontuações de 2018 e 2020, na OCDE, é três vezes maior do que qualquer mudança consecutiva anterior. Equivale a cerca de três quartos de um ano de aprendizagem. Em Portugal, a descida de 20 pontos equivale a um ano de escolaridade.

Alargando a análise de resultados aos três domínios, a OCDE aponta que um em cada quatro jovens de 15 anos tem baixo desempenho a matemática, leitura e ciência. Pode, por isso, ter dificuldades em usar algoritmos básicos ou interpretar textos simples. Esta tendência é mais pronunciada em 18 países e economias, onde mais de 60% dos jovens de 15 anos estão a ficar para trás. No que toca ao desempenho na matemática, um em cada três alunos portugueses têm dificuldades em operações matemáticas básicas, não atingindo níveis de proficiência mínimos.

Quando se procuram explicações para os resultados de 2022, a OCDE é a primeira a admitir que a culpa do declínio nos desempenhos não pode ser atribuída apenas à Covid-19. As pontuações em leitura e ciência estavam em queda antes da pandemia. E as tendências negativas no desempenho em matemática eram visíveis antes de 2018 na Bélgica, Canadá, República Checa, Finlândia, França, Hungria, Islândia, Países Baixos, Nova Zelândia e República Eslovaca.

“Mesmo a relação entre o encerramento de escolas, frequentemente citado como a principal causa do declínio do desempenho, não é tão direta”, adianta o secretário-geral da OCDE. Em toda a OCDE, metade dos alunos tiveram as suas escolas fechadas por mais de três meses. Contudo, os resultados do PISA 2022 não mostram diferenças claras nas tendências de desempenho entre sistemas educativos com encerramentos limitados, como Islândia, Suécia e Taipé Chinesa, e por períodos mais longos (mais de três meses), como Brasil, Irlanda e Jamaica. Em 2021, o relatório “O Estado Global da Educação – 18 meses em pandemia”, da OCDE, referia que escolas portuguesas estiveram encerradas 97 dias, entre março de 2020 e 20 de maio de 2021.

Apoio de professores e pais
O apoio dos professores e dos pais mostrou-se um fator positivo no desempenho dos alunos. Os dados do PISA 2022 confirmam a importância da disponibilidade dos adultos para as crianças e os jovens, sobretudo em tempos de incerteza. Que tipo de apoios? Prestação de serviços adicionais, apoio pedagógico e motivacional aos alunos, aponta a OCDE. “A disponibilidade dos professores para ajudar os alunos teve a relação mais forte com o desempenho a matemática em toda a OCDE, em comparação com outras experiências ligadas ao encerramento das escolas durante a Covid-19”, lê-se no volume 1 do PISA.

Nos países onde os alunos reportaram ter um bom acesso à ajuda do professor, a pontuação em matemática foi 15 pontos maior, em média. Esses alunos mostraram-se ainda mais confiantes do que seus colegas para aprender de forma autónoma e remota. Apesar disso, um em cada cinco estudantes disse que só recebeu ajuda extra do professor em algumas aulas de matemática em 2022. Cerca de 8% nunca ou quase nunca receberam apoio, em toda a OCDE. Três em cada quatro alunos portugueses reportaram ter apoio extra dos professores de matemática e pelo menos 80% disseram que os pais ou alguém da sua família tinham a preocupação de lhes perguntar o que tinham feito na escola, nesse dia.

O apoio que os pais oferecem aos seus filhos pode ter um impacto decisivo nos resultados escolares. No PISA 2022, os alunos que relataram contar com o apoio parental mostraram mais estabilidade ou melhoria nos desempenhos a matemática, entre 2018 e 2022. Isto, adiantam os investigadores, foi particularmente verdadeiro para os alunos desfavorecidos. Ainda assim, o envolvimento dos pais na aprendizagem dos alunos na escola diminuiu substancialmente entre 2018 e 2022. Em média, entre os países da OCDE, a percentagem de alunos em escolas onde a maioria dos pais iniciou discussões sobre o progresso dos seus filhos com um professor caiu dez pontos percentuais.

Tecnologias e investimento
Cerca de três quartos dos estudantes da OCDE usam com confiança várias tecnologias, incluindo sistemas de gestão de aprendizagem, plataformas escolares de aprendizagem e programas de comunicação e vídeo. Em mais de 45 países e economias, os alunos que usam dispositivos digitais para fins educativos na escola até uma hora por dia obtêm 14 pontos a mais em matemática do que os alunos que não utilizam.

Por outro lado, a tecnologia utilizada para lazer e não para aprendizagem, como é o caso dos telemóveis, muitas vezes parece estar associada a resultados piores. Os alunos que admitiram distrair-se com outros alunos que usam dispositivos digitais, em pelo menos algumas aulas de matemática, obtiveram 15 pontos a menos que os alunos a quem isso nunca ou raramente acontece.

A OCDE confirma uma relação positiva entre o investimento na educação e o desempenho médio até um limiar de 75 000 dólares americanos, em despesas cumulativas, por aluno dos seis aos 15 anos. “Para muitos países da OCDE que gastam mais por aluno, não há relação entre investimento extra e desempenho do aluno”, lê-se no relatório do PISA 2022. Coreia e Singapura surgem até como exemplos de sistemas educativos que conseguem elevados desempenhos começando com investimentos relativamente baixos em educação. Como? “Priorizando a qualidade do ensino em detrimento do tamanho das turmas e criando mecanismos de financiamento que alinham recursos com necessidades.”


ANDREIA LOBO
É jornalista especializada em educação desde 2007, e nos últimos anos tem colaborado na produção de conteúdos do EDULOG, o think tank para a educação da Fundação Belmiro de Azevedo. Integrou projetos de investigação e divulgação científica nas áreas da educação para os media e da aprendizagem da leitura e da escrita. Antes, trabalhou em meios de comunicação social como o jornal A Página da Educação e o portal EDUCARE.PT.

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