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Um novo ano começou. E quando um ano sai e outro entra, não conseguimos deixar de fazer um balanço. E quando um novo ano começa, por cada badalada, uma passa; e por cada passa, um desejo. A tradição continua a ser o que era. Mas será a mesma a confiança com que os desejos foram formulados? E não terá ela diminuído no pouco tempo que o ano já leva?
"O sonho comanda a vida"*, já dizia António Gedeão. "I have a dream"**, anunciava Martin Luther King. E o sonho concretizou-se, com muito esforço coletivo a fazê-lo crescer e viver.
"Bom ano", desejo por mim formulado várias vezes, com muita sinceridade, mas com pouca convicção de que se pudesse concretizar. Uma mensagem recebida de uma amiga mudou a minha perspetiva: "Façamos deste um ano melhor do que aquele que nos é apresentado."
Pois eu desejo. O desejo, como o sonho, ou o desejo-sonho, "comanda a vida"* e faz mover o mundo. Eu desejo e sonho e, se a minha vida é a escola, muitos dos meus desejos-sonhos vão para ela.
Sonho sonhos simples, que não é justo poderem ser marcados pelo receio de não passarem de sonhos. Sonho com uma escola pública que garanta uma educação de qualidade, com uma escola com professores e pessoal não docente de qualidade e em quantidade adequada, que possam dedicar-se ao trabalho com condições e sem uma permanente instabilidade a marcar os seus dias. Sonho com uma escola onde aprender e ensinar se conjuguem em interação e os conhecimentos não se separem dos valores, dos afetos e da justiça social. Sonho com uma escola que seja uma superescola pela sua qualidade científica e humana e não pelas suas dimensões e número de estudantes. Sonho com uma escola em que todos os alunos possam ser conhecidos por todos os adultos (docentes e não docentes) pelos seus nomes. Sonho com uma escola em que cada professor tenha um número de alunos que lhe permita conhecer cada um deles e (pre)ocupar-se com cada um deles, trabalhar com cada um como sendo apenas um - e "um" especial e único - e com cada turma como sendo o grupo com características próprias que efetivamente é. Sonho com uma escola em que a diversidade seja valorizada como riqueza e não considerada como um obstáculo. Sonho com uma escola em que a igualdade de oportunidades seja uma realidade e em que não se agudizem as diferenças que cada vez mais se acentuam na sociedade.
Sei que, muitas vezes, quando se entra na escola (ou se lê o jornal) é difícil manter o sonho e o desejo pode correr o risco de não encontrar sustento. Vemos as escolas agigantarem-se em gigamega-agrupamentos. Vemos as turmas crescerem em número de alunos. Vemos as horas de trabalho letivo a aumentarem. Vemos o número de turmas/alunos por professor a crescer a tal ponto que, se até é difícil conseguir saber os nomes dos estudantes, mais difícil ainda é trabalhar com cada um de forma individualizada e com cada turma de acordo com a sua especificidade. Sentimos angústia pelos professores ausentes ao fim de tantos anos, apesar de a realidade mostrar a falta que fazem.
Sentimos angústia por aqueles que, pelo seu estatuto precário, andam sempre de mala às costas ou nem têm para onde a levar. Sentimos angústia pela precariedade laboral e pela incerteza que parece ter-se instalado definitivamente, num agravamento constante desde o início do ano: o que reserva o próximo ano letivo a quem ainda ficou?
Mas a escola não pode deixar de ser um lugar de conhecimento, de valores, de afetos, de vida, de sonho. Com Gedeão, reaprendo que "o sonho comanda a vida"* e que "sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança"*. Pedindo as palavras emprestadas a Luther King, "Digo-vos hoje, meus amigos, que, apesar de nos confrontarmos com as dificuldades de hoje e de amanhã, continuo a ter um sonho."*** Mas se o sonho comanda a vida, apenas a união faz a força e só com vontade se movem montanhas. Que o novo ano fortaleça a capacidade de desejar e de tornar os desejos realidade.
* In "Pedra Filosofal", António Gedeão, 1956.
** In "I have a dream", discurso de Martin Luther King, Washington, 28-08-1963.
*** Tradução livre de "I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream.", in "I have a dream".
ARMANDA ZENHAS
Professora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
Armanda Zenhas
Andreia Lobo
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